Bangkok – Maluca? Só se você quiser!

Se você chegou até aqui pelo google, não deixe de passar por este post para entender como planejar o seu roteiro pelo sudeste asiático…

A minha grande sorte nessa vida foi não ter visto o filme “Se Beber não Case 2” antes de ir para Bangkok. E ter estudado um pouco o roteiro antes de me aventurar pela capital Tai e uma das grandes cidades do mundo.

Bangkok não morde, em primeiro lugar. É diferente do que estamos acostumados, mas só um pouco. A cultura ocidental do shopping center já deu seus passos por lá e a cidade, principalmente na região da Siam Square, é um emaranhado de shoppings, um conectado ao outro pelo Skywalk (que eu já explico o que é).

Mas se você quer doideira, tem também, oras. Afinal você está em Bangkok!

Grande Palácio Real e o Templo do Buda de Esmeralda

Para começar a conversa, Bangkok tem um dos palácios mais sensacionais do mundo. Tudo bem que Versailles é fantástico e aqui mesmo no blog temos o Sans Souci que também é maravilhoso. Mas o palácio asiático tem um “que” de diferente que nós, ocidentais, nunca teremos visto na vida. Vale a visita só por isso.

Aqui, mais do que falar do palácio, eu vou mostrar umas fotos e dar umas dicas de coisas que certamente acontecerão com você:

Sua construção iniciou-se em 1782 e foi utilizado como residência oficial até 1932, com a abolição da monarquia absolutista no país. Em 1945,  após o retorno do rei Rama VIII, voltou a ser utilizado como residência oficial em tempo integral. Após sua morte, um ano depois, foi definitivamente aposentado de sua função de residência oficial, mas sem perder suas funções de sediar rituais, banquetes, cerimoniais e outros compromissos de Estado.

Vale a visita?

Com absoluta certeza. O Palácio de Phnom Penh, já descrito aqui, é uma miniatura deste. O de Bangkok é gigantesco e com uma arquitetura muito diferente. As colunas, os telhados e as torres não encontram paralelo do lado de cá do mundo. Na minha opinião, este palácio é a coisa mais importante para se ver na cidade.

Templo do buda de esmeralda

Aqui eu vou ficar devendo a foto, porque não deixam que a gente tire dentro do templo. Esse templo fica dentro do complexo do palácio real e é o mais sagrado da Tailândia. Abriga uma imagem de buda que seria, supostamente, de esmeralda. O que eu ouvi por lá (confirmado pela wikipedia) é que a estátua é de jade, já que não existe esmeralda na Tailândia. Dado o seu caráter sagrado, contudo, acredito que pensaram que seria mais adequado que ela fosse nomeada como buda de esmeralda, uma pedra preciosa, ao invés de jade…

O Buda deitado “Wat Pho”

A uma distância não muito grande do Palácio real fica a segunda parada obrigatória de Bangkok, Wat Pho, o templo que abriga o Buda deitado. Aqui, tem uns macetes. Vamos a eles:

O pessoal que fica do lado de fora do palácio real (que fecha às 15:30 hs.) tenta, de todas as maneiras, te indicar o lado errado do buda deitado. Além disso falam que ele já fechou e querem te levar para alguma outra atividade que os remunere. Assim, muito cuidado com taxistas ou tuk tukers (que são mais caros do que táxis) ao redor de atrações turísticas. O buda deitado está a uma distância razoavelmente caminhável do Palácio, mas se você quiser ir de táxi, não vai ficar caro. Ah, e ele fecha às 17:00 ou 18:00 hs. (cheque antes).

Esta é outra dificuldade imensa da cidade: os horários. Sinceramente, peguei folhetos e perguntei para algumas pessoas mais confiáveis (uma moça com quem fechamos os passeios de fora de Bangkok e mesmo a turma do hotel) e ninguém sabe nada. Segundo me disse a Tong, com quem fizemos alguns tours, eles mexem tanto nos horários, que ninguém nunca sabe o que será. Portanto, mesmo que você tente confirmar tudo antecipadamente, sempre é melhor verificar em datas próximas como será o funcionamento, principalmente se objetivar chegar nas horas de fechamento…

Superados os avisos, vamos ao local propriamente dito:

Caso você já o tenha visto em programas de televisão, novelas e etc., saiba que, ainda assim, ele irá te surpreender pelo tamanho. É uma estátua gigantesca, coberta de ouro (mas não toda de ouro). Ela sedia uma série de rituais budistas (estivemos lá durante o Songkran, que é o ano novo tailandês e ela estava toda cercada de rituais e festividades). Tem 43 metros de comprimento por 15 metros de altura, segundo o wikipedia.

Como disse, o templo do buda deitado é parte de um complexo de templos (bem menor do que o palácio real). Assim, reserve um tempo para dar um passeio por eles. Há muitas orações e monges passando pelo local. Vale a pena.

O Songkran

Antes que o amigo ou amiga leitor (a) possa se confundir, o Songkran não se trata de um lugar em Bangkok, mas de uma data: o ano novo tailandês.

O negócio é o seguinte: se você  estiver por lá nestas datas (segunda semana de abril, de sexta a segunda) e não gostar de água (ou planejar fazer passeios “convencionais”), esqueça. A cidade fica infestada de pessoas com armas de água (algumas bem poderosas, estilo bazuca mesmo) e a ordem é molhar todo mundo. Se você resolver tomar um tuk tuk, prepare-se para ficar muito molhado. E a Khao San Road (meca do turismo mochileiro do sudeste asiático) é o coração do evento.

Minha esposa e eu fomos pegos completamente de surpresa pela data, em cima da hora (quando marcamos os passeios externos de Bangkok). Trata-se de um feriado longo (tipo o nosso carnaval) onde quase nada funciona na cidade. O quase nada que eu digo é a vida civil (bancos, repartições públicas, etc.), já que a parte turística não é abalada. Não sei se os palácios ficam abertos, é preciso checar, mas se ficarem a única maneira de ir até eles será de táxi… Em resumo, a gente ficava com medo de sair na rua e voltar ensopado e acabamos perdendo alguns passeios (tipo a Khao San Road) por causa do tumulto.

A lição que a gente tira é a de que devemos analisar muito bem o calendário dos lugares antes de nos mandarmos por este mundão. Nosso passeio não foi inviabilizado porque chegamos um dia antes e conseguimos visitar os palácios. Mas no domingo tudo ficou muito prejudicado. Como o planejado era irmos aos mercados flutuante e do trem e ao templo de tigres, o sábado foi normal. Mas domingo acabamos ficando num dos shoppings de lá, sem poder pisar na rua. Se quiser ir para aproveitar o feriado, vá ciente e aproveite. Mas cuidado para não ser pego de surpresa como nós fomos…

O skywalk e os shoppings

Aqui não me resta outra coisa, senão falar de shoppings. O skywalk é uma passarela (tipo o minhocão de SP) por onde passa o “metrô” de Bangkok. Ele é bem limitado e só passa por cima da área mais central da cidade. É uma calçada suspensa que facilita a caminhada e a ligação entre as estações.

Em relação aos shoppings, o que posso dizer é que a cidade é bem ocidentalizada neste quesito. Não sentimos muitas diferenças em relação aos shoppings de outros lugares do mundo. Exceto pelo piso de comida, que é muito interessante e diferente. Vou deixar umas fotos para ilustrar o post:

Fora de Bangkok

O mercado do trem

Quando pensamos em situações pitorescas da Ásia, logo vêm a nossa mente os mercados. Eles são diversos do que estamos acostumados, já que a culinária é bastante diferente. Além disso, as noções de higiene também variam um pouco daqui para lá.

Pois bem, a primeira pergunta que faço neste ponto da viagem é: vale a pena sair de Bangkok para conhecer esses lugares?

A minha resposta é: sim.

Eles são muito turistões, batidos e estão mais para destino turístico do que para mercados propriamente ditos. Mas valem a pena pelo seu caráter pitoresco. Onde é que você vai encontrar um mercado com um trem passando no meio, aí próximo da sua casa? Anh? Fala aí!

Portanto, vale a pena passear pelos lugares para ver com os seus próprios olhos. Este, aliás, é um mal que todos passaremos em viagens: irmos a lugares que são sabidamente “pega turista”. Não tem jeito! Fotos?

Neste lugar aí, o certo é ir com guia. O trem passa oito vezes ao dia, quatro chegando e quatro saindo. Assim, uma pessoa que entenda dos horários dele é fundamental para aproveitar o passeio. Se o trem não passar, a visita não será nada mais do que um mercado com trilhos no meio.

O pessoal é bastante esperto por lá e sabe quando o trem chega. Eles mesmos já apertam os turistas junto das barracas de produtos, que ficam, de fato, no meio do trilho.

A pergunta

Quando você chega lá, vê que existe muito terreno ao lado dos trilhos onde pode ser construído um mercado. E eu perguntei ao guia, então, o porquê de um mercado tão perigoso ainda estar ativo.

Ele me disse que o governo já tinha tentado tirar a turma de lá várias vezes (e tirou), mas como o preço dos terrenos está fora de possibilidade para muitos tailandeses, não lhes resta outra saída a não ser ir para os trilhos de novo…

Não sei se é verdade, mas foi o que me disseram!

Aproveite seu passeio, já que será rápido e interessante…

Um mercado flutuante – Damnoen Saduak

Bom, antes de mais nada é interessante dizer que não existe “O” mercado flutuante, mas vários. Assim, quando for para lá, assegure-se de qual deseja visitar (não sei se são muito diferentes, mas, enfim).

O de Damnoen Saduak é o mais turístico e que funciona todos os dias. Próximo de Bangkok (dá prá ir de ônibus para os mais aventureiros) tem um, chamado Khlong Latmayom. Não precisa muito mais do que uma “googlada” para achar, ao menos, uma dezena deles por ali.

Por ser um dos mais visitados, o de Damnoen Saduak deve ser o mais “turistão” de todos. Nele você pode pegar um barco e dar uma volta por lá, estilo Veneza. Nosso guia até pegou um tradicional café da manhã tailandês num barco de uma vendedora.

Por ali também há as tradicionais figuras que sempre habitam os lugares de muito movimento… Vai valer a pena passear por lá.

Uma historinha

Segundo nosso guia me contou, esses canais por onde o pessoal passa com os barcos foram criados por um antigo rei tailandês que, preocupado com o deslocamento por péssimas estradas (além da falta de saneamento básico) optou por construir uma grande rede de canais. Assim, alguns camponeses puderam trazer seus produtos para comercializarem em mercados. Daí veio essa tradição de vender em barcos.

A pergunta

É pega turista? É! Vale a pena? Sim!

Repito: onde, meu caro amigo ou amiga visitante, você achará, aí na sua vizinhança, pessoas com produtos diferentes em barcos?

O Tiger Temple de Kanchanaburi

Aqui temos o momento Luciana Gimenez do blog! É polêmico, muito polêmico!

A história

O templo foi fundado em 1994, com o fito de ser um local de oração e santuário de animais silvestres. Em 1999 o primeiro tigre chegou e, a partir daí, o pessoal das redondezas começou a levar os tigres que eram encontrados por lá para o templo. Hoje já passa de 100 o número de felinos por lá.

O grande motivo da polêmica é: como tigres, grandes predadores do topo da cadeia alimentar e animais naturalmente territoriais e agressivos, se tornaram mansos gatinhos nas mãos dos monges?

É preciso que se diga, de antemão, que o crescimento populacional e a ocupação de áreas antes silvestres tem causado um êxodo de animais que perderam os alimentos de seus habitats. Aí, esses grandes comedores de carne normalmente caçam criações de fazendas, causando prejuízo. O fim da história a gente já sabe: eles são caçados e abatidos.

A ideia do templo é ser um local de preservação dos tigres. Eles ficam a maior parte do tempo soltos (as visitas só são permitidas durante a tarde, momento em que eles estão mais tranquilos após a refeição – atualmente existe uma segunda opção, louca de cara, de tratar dos tigres de manhã, mas ela é bem restrita) e só ficam disponíveis durante uma pequena parte do dia para interação com os visitantes.

A pergunta

Mas não houve resposta para a pergunta: como animais naturalmente agressivos conseguem ser controlados daquela maneira, a ponto de permitirem que passemos a mão neles, como gatos domésticos?

Não sei esta resposta. O guia me disse que há 5 anos ele visita semanalmente o templo e nunca viu nada de estranho na alimentação dos tigres. Diferentemente do que se diz por aí, eles não são sedados. O que pode explicar a sua situação é o fato de serem bem alimentados (com frango, segundo disseram por lá) e, com a saciedade constante (e certeza de alimentação periódica). Mas não sei se só isso seria capaz de segurar aqueles bichos enormes.

A pergunta 2

E por que motivo, também, deixá-los em cativeiro?

Aí a explicação é o que disse acima. Seus habitats estão sendo tomados pelos seres humanos e a convivência com eles é impossível, em razão de sua natureza de caçadores… É culpa do nosso crescimento populacional.

Esse aí, acima, é o monge responsável pelo templo

O guia

Quem leu algum outro post do blog já deve saber que eu prefiro fazer tudo por conta própria (até por isso criei um blog para trocar experiências) e que eu, normalmente, dou o caminho completo para o leitor fazer o passeio sem ajuda.

Porém, em razão das dificuldades linguísticas e alfabéticas, bem como pela precariedade de transporte coletivo de massa que existe em algumas das cidades visitadas, fica inviável querer fazer tudo sozinho. Em primeiro lugar porque existem taxistas e tuk tukers que sequer conhecem o alfabeto ocidental. Assim, ainda que você esteja com um mapa e aponte o lugar para onde deseja ir, eles não entendem, porque não conhecem nossas letras.

Além disso, salvo hoteis e os envolvidas com turismo, não é comum que as pessoas falem inglês por lá. Assim, é muito complicado conseguir informações fidedignas. A gente nota isso após algum tempo por lá, quando percebe que recebemos muitos “sim” e “sorrisos” em respostas a todas as perguntas. Eles tentam nos ajudar sempre, mas a comunicação é bem precária.

Some-se a isso o fato de serem locais bastante distantes de Bangkok (o Templo dos Tigres fica a mais de duas horas de carro), ou seja, para fazê-lo por conta própria teríamos que superar uma verdadeira saga.

Por fim…

Este deve ser, fatalmente, um dos maiores posts do blog. E isso acontece porque Bangkok, como toda cidade muito grande, tem muito o que se ver. Aqui não falamos das lutas de muay thai, dos shows eróticos, de transexuais, de passeios alternativos, de baladas, de tour pelo rio Chao Phraya, de Ayutthaya, e nem de Wat Arun. Ainda haveria um sem número de templos a serem visitados por lá, mas seria impossível fazer isso tudo no ritmo de viagem em que estávamos.

Assim, certamente gostaria de voltar a Bangkok. Talvez não num futuro tão próximo, mas é um lugar que sempre fez parte do meu imaginário. Conhecê-la foi como realizar um grande sonho…

Diquinhas de Bangkok

– Cuidado com os tuk tuks e os táxis. Os táxis possuem taxímetro mas, principalmente em locais muito turísticos, os taxistas normalmente não querem ligá-lo. Se tiver condição, insista. Eles vão tentar te cobrar o quádruplo do que deveriam se ligassem o taxímetro…

– Cuidado com informações. Já disse sobre o templo das tentativas de enganar os turistas. É frequente, existe e você cairá se não tomar cuidado. Ande com um mapa na mão (de preferência um que tenha os locais em thai e em inglês) e saiba onde quer ir por conta própria. Normalmente as perguntas não terão as respostas desejadas…

De resto aproveite o passeio. Você irá se divertir.

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Phnom Penh – Do you need a tuk-tuk, sir?

Se você chegou até aqui pelo google, não deixe de passar por este post para entender como planejar o seu roteiro pelo sudeste asiático…

Phnom Penh (lê-se Non Pen ou, se você for bom com a língua, aquele som com a língua entre os dentes…)

Inicialmente, a capital cambojana não fazia parte do nosso roteiro. Iríamos apenas para Siem Reap ver as ruínas de Angkor. Porém, após uma breve pesquisa e alguns vídeos pela internet, concluí que não poderia visitar o Camboja sem conhecer sua capital. Deixamos apenas um dia, pois, para ela. Digo que foi pouco. Se você tiver duas noites, considere ficar lá por mais tempo.

A capital cambojana tem muito mais a ver com seu povo do que com os monumentos. Phnom Penh foi construída justamente para ser a nova capital dos khmers, povo que tinha construído Angkor e a abandonou. Na Tailândia, me disseram que a mudança de capital se deu em razão do temor com as invasões tailandesas (Angkor Wat fica muito próxima da fronteira com a Tailândia), mas os cambojanos podem dizer que é uma mera mudança administrativa, ora bolas…

O povo cambojano é FANTÁSTICO. Um dos mais hospitaleiros que visitamos até hoje. Os cambojanos são pobres, alguns paupérrimos, mas não tiram o sorriso espontâneo do rosto. Essa é a maior diferença em relação aos tailandeses, por exemplo. Por estarem tão acostumados com turistas desde muito tempo, os tailandeses são muito mais “maliciosos” do que os cambojanos. O cambojano é ingênuo, até, mas não bobo, é claro.

Como pontos turísticos, Phnom Penh tem dois mercados (o russo e o Central), um belo palácio, um campo de extermínio de pessoas (nos arredores) e uma prisão de interrogatório. A cidade transita, então, pelo seu passado do Khmer Rouge e o presente budista e mercador.

Visitamos o mercado Central, o Palácio e a prisão. Deixamos os Killing Fields e o mercado russo para uma próxima visita (que realmente deve ocorrer um dia).

Phnom Pehn tem muito de seu passado pelas ruas, com, infelizmente, muitas pessoas mutiladas pelas minas terrestres. Não vi grandes resquícios da guerra do Vietnã por lá e existe alguma memória sobre o que o nosso Pol Pot fez por lá.

O povo cambojano é, na sua maioria, budista, o que faz com que haja muitas imagens de buda pela cidade, além de monges por todos os lados…

Breve história

O Camboja é um país muito rico em história neste último século. Se na época dos khmers eles brigavam com a Tailândia e alguns vizinhos, após este período eles passaram por uma colonização francesa (de 1863 a 1953) interrompida pelo período da II Guerra Mundial, quando caiu nas mãos dos japoneses. Depois disso ficou independente e viu nascer um grande sentimento nacionalista. O rei Norodorm assumiu o país e ficou ali até 1970, quando seu Marechal Lon Nol dá um golpe de Estado e toma o poder. Esse Lon Nol fica no comando até 1975, quando as tropas de Pol Pot marcharam por Phnom Penh e tomaram de novo o poder. Aí eles ficaram até 1978 derramando muito sangue por lá, até serem depostos por um governo “amigo” vietnamita.

Briga vai e briga vem, a turma do Pol Pot seguiu lutando contra o governo até 1990 (quando o comunismo oficialmente acabou, com a queda do Muro de Berlim um ano antes). A ONU interveio, tomou um pouco de conta da situação e, em 1993, chamou o rei de volta para lá, instalando uma monarquia constitucionalista no país. Até 1998 a situação continuou complicada, pois Pol Pot estava na floresta e seu fantasma ainda existia sobre os governantes. Em 1998 ele “morreu de ataque cardíaco” segundo as fontes oficiais. As conversas no Camboja dão conta de que ele foi é assassinado pelo atual primeiro ministro, Hun Sen. Estava, assim, pacificado o país, para que tentasse renascer das cinzas após um século tão conturbado quanto o XX.

Diferentemente de tantos outros locais históricos, onde tudo se passou há tanto tempo (por exemplo Berlim), Phnom Penh ainda tem nas ruas muitas pessoas que realmente viveram esses períodos. Aparentemente os temas ainda são bastante presentes por lá, apesar do povo não falar sobre isso facilmente. A gente consegue conversar um pouco, mas acho que é um tema que incomoda as pessoas…

Pensei, erroneamente, que o pessoal falasse um pouco de francês por lá e que essa língua, apesar de não dominante, ainda fosse fluente. Nem pensar. Eles falam e são alfabetizados em khmer (que tem alfabeto próprio). Os resquícios de colonização francesa são alguns restaurantes e os casarões na região central e beira rio. O hotel que ficamos, o ótimo The Pavilion, é uma dessas mansões restauradas…

Enquanto o tema está fresco, vamos começar por Tuol Sleng (ou S-21)

Tuol Sleng (S-21)

Pense no inferno. Pensou? Piore um pouco. Talvez assim você chegue próximo do que foi esse absurdo.

Tuol Sleng foi uma prisão de interrogatório, usada pelo Khmer vermelho para combater opositores do regime.

Como todos os governantes que tomam o poder na marra, o Pol Pot tinha mania de perseguição. E isso, obviamente, incluía TODO MUNDO. Então ele teve a brilhante ideia de transformar uma escola secundária em centro de interrogatório, tortura e genocídio (nem se pode falar em assassinato, porque as proporções foram absurdas). Ali ele executou todo o tipo de tortura psicológica, física e mental nos coitados dos cambojanos. Pelo que pudemos perceber nas placas, todo mundo era inimigo até prova em contrário. Não é que o cara pegava realmente inimigos e opositores e os maltratava. Ele fazia isso com todo mundo. Um jardineiro, um mecânico, um verdureiro, por exemplo, pessoas que nem politicamente engajadas eram, foram torturadas e assassinadas sob a desculpa de estarem a serviço da CIA. Um dos relatos que eu li lá, dão conta de um mecânico, que, diariamente torturado, confessou ser agente infiltrado da CIA. Era muito provável que ele não fizesse ideia do que era a CIA…

A prisão tem cinco prédios e cada um deles foi dividido para tipos de presos. As fotos são chocantes…

A lousa foi mantida, lembrando que aquilo tinha sido uma escola…

A prisão foi dividida em salas e cada sala de aula teve construídos muros que correspondiam a uma cela. Cada cela, de mais ou menos 2 m2, armazenada um homem ou mulher. Havia algumas de madeira e outras de alvenaria. Eram parcamente iluminadas, e com nula higiene. As pessoas ficavam acorrentadas, inclusive nas celas.

As camas serviam para tortura. As pessoas eram deixadas amarradas nessas camas para serem torturadas. Frequentemente morriam por lá. Um horror sem tamanho…

Essa gravura mostra um tipo de tortura a que os prisioneiros eram submetidos. Pelo que li nas placas por lá, eles desenvolveram (ou copiaram) uma técnica de “dobrar” as pessoas até um limite de quebra da coluna. Nesse ponto, tomados pela dor, os torturados desmaiavam. Aí os torturadores colocavam a cabeça dos torturados dentro de latrinas, para que eles acordassem rapidamente pelo odor. Neste momento de “plena consciência” eram inquiridos sobre sua colaboração com outros governos inimigos e etc…

Consta que a descoberta de Tuol Sleng ocorreu porque um fotógrafo vietnamita seguiu uma “trilha de corpos”…

Os últimos quatorze, que foram descobertos quando o local foi tomado, estão sepultados por lá… Isto, obviamente, foi uma sorte, já que os outros 20 e tantos mil que foram assassinados antes não tiveram, também, direito a um enterro digno.

Aí o leitor vai perguntar: peraí, você é maluco? Doido? Viaja 20 mil quilômetros para ficar vendo torturas e histórias horrendas? Que tipo de bicho te mordeu?

E eu respondo: nenhum. Eu simplesmente acho que pessoas demais já sofreram neste mundo para a gente achar que tudo está aqui deste jeito por acaso. Esta história, e a contada no campo de Sachsenhausen, por exemplo, devem servir de modelo para que essas coisas NUNCA mais aconteçam nesse mundo. É por esse motivo que as memórias existem. Para que esses absurdos não ocorram mais.

O Pol Pot, na minha opinião, é ainda pior do que o Hitler porque ele dizimou um terço do seu próprio povo. Hitler, pelo menos, dizimou um povo que ele não considerava como seus semelhantes. Pol Pot matou um terço dos khmers, gente da sua própria gente…

Enfim, o lugar me deixou revoltado, mas valeu a pena conhecê-lo…

Dos doze sobreviventes, quatro ainda estão vivos e ficam por lá. Se interessar a história deles, dá prá conversar na saída, perto da livraria.

O palácio e a silver pagoda

Saindo da parte “macabra” de Phnom Penh, a cidade também possui uma bela obra de arquitetura. Falo do palácio real.

Dizem que o palácio real de Phnom Penh é baseado no de Bangkok, só que em menor escala. Até achei que a arquitetura de ambos seja meio similar, mas o de Bangkok é muito maior…

O rei ainda mora por lá, por isso grande parte dos palácios é fechada (assim como em Bangkok, mas lá o rei não mora mais no palácio). Assim, a visita fica meio limitada aos jardins e à parte externa.

Vamos passear?

Taí a Naga, guardando o palácio, como em Angkor Wat…

Os palácios são muito bonitos (como se nota pelas fotos) mas a visitação interna é limitada. A silver pagoda (um templo budista de chão de placas de prata), por exemplo, não permite fotos internas (ainda vou entender isso um dia, o motivo de limitarem fotos internas em monumentos históricos). É um local bonito, faz parte do complexo e serve para orações.

Turisticamente, é um lugar relevante, daqueles que não se pode perder em uma viagem até lá. Mas o complexo não é grande e pode ser visitado rapidamente. Basicamente são dois lugares, o palácio e a pagoda com chão de prata.

E não é que eu queira meter o pau à toa não, mas como um país tão pobre como o Camboja pode se dar ao luxo de ter um palácio tão suntuoso? Os caras cortam a grama lá dentro e o povo morre de fome lá fora… Mas enfim…

Mercado Central

Amigo pechincheiro, amiga fuçadora… preparem-se! Essa é a meca do consumo cambojano. Eis o Mercado Central de Phnom Penh!

E o que que vende lá, seu blogueiro?

TUDO! Quer peixe? Tem. Quer joia? Tem. Quer comida? Tem. Quer fruta? Tem. Quer roupa? Tem. Quer acessórios para a casa? Tem. Enfim, tem tudo.

Dá prá gastar umas boas horinhas pechinchando e comprando todo tipo de quinquilharia. Quando fomos, havia um bazar do lado de fora em que estavam vendendo roupas masculinas de boa qualidade com aquele precinho camarada que só o Camboja tem…

O prédio é bonito, mas já foi ocupado de tudo quanto é jeito (interna e externamente). Lá, também, tivemos o privilégio de ouvir música brasileira da melhor qualidade, tipo exportação: garota tantão!

Pensamos, inicialmente, que se tratava de um mercado de frutas e legumes. Mas não é. As roupas são de baixa qualidade, estilo falsificações baratas. Mas existem coisas interessantes também. Compramos toalha de mesa de ótima qualidade, além de alguns outros objetos para casa. Vale o passeio por lá.

Como disse, ficaram faltando os Killing Fields (que segundo a moça me falou são piores do que Tuol Sleng) e o mercado russo. Ficarão para a próxima.

O que não vai ficar para a próxima é a vista do rio Mekong (o grande motivo que me levou para Phnom Penh):

Essa é a vista da janela do Blue Pumpkin, um restaurante/lounge excelente. Tem em Phnom Penh e em Siem Reap…

(Não ganho nada para falar bem de restaurante, ainda mais no Camboja…)

Vale a pena visitar, seja em Siem Reap ou em Phnom Penh. Eles possuem um delicioso shake de manga, além de pratos de ótima qualidade. Como tudo é muito barato no Camboja, dá até para frequentar o lugar toda hora…

Nossa outra experiência gastronômica foi neste outro acima. Comemos comida khmer neste bistrô, que fica na Sisowath quay, a avenida beira rio.

Até que para quem só ia dar uma “passadinha” por Phnom Penh, o passeio rendeu bastante… E eu já estou com saudades…