St. Moritz, o Bernina Express e o hotel no topo da montanha…

Já estou suspirando antes mesmo de começar a escrever esse post. Talvez ele retrate o que aconteceu de mais interessante em toda essa viagem…

Vamos passear pelo Bernina Express, chegar em St. Moritz e dormir no Muottas Muragl, o hotel mais legal de toda a viagem. Daqui a pouco conto o motivo.

Pois bem, saímos de Veneza cedinho, antes do sol nascer, no vaporetto das 6:20 da manhã. Tínhamos um trem que nos levaria a Milão (Freccia Bianca) às 6:58 hs. Aqui foi onde eu descobri que ir à estação Santa Lucia era muito mais negócio do que ir até o aeroporto. O primeiro vaporetto saía exatamente neste horário. Não pense em querer sair mais cedo porque não vai dar certo.

A viagem até Milão leva 2 horas e meia nesse trem. É rápida e não muito interessante. Para nós, foi nossa primeira vez em trens europeus, então valeu a experiência. Mas não tem nada digno de nota por aqui.

Chegamos em Milão no horário e de lá pegamos o trem regional que nos levaria té Tirano, cidade fronteiriça entre a Itália e a Suíça. Um vilarejo charmoso, pequeno e que deve ser muito interessante de se olhar. Isso se não estiver chovendo, é claro, como era o nosso caso. Assim, só deu tempo mesmo de comer alguma coisa e se preparar para pegar o Bernina propriamente dito, que nos levaria a St. Moritz. Basicamente um dia inteiro em trânsito…

Mezzo Itália, durch Schweizer (meio Itália, meio Suíça)

Para pegar o Bernina Express, não basta apenas o Swiss Pass, mas também uma reserva (paga) no site da ferrovia. A passagem (para quem não tem Swiss Pass custa uns 25 francos). Espere gastar uns 40 francos entre reserva e passagem.

A diferença do Bernina para o trem comum (que faz esta mesma rota) é o fato de ser panorâmico. Os vidros são enormes justamente para termos uma noção completa da ferrovia. Em termos de conforto, não senti tanta diferença em relação a um trem comum.  Mas a rota toda é muito bonita.

Olhem o biluzinho que nos levou a St. Moritz…

Antes de embarcar no trem passei minha primeira experiência interessante na Suíça. Como se nota claramente nesta placa, está escrito que o nosso trem iria para Davos, mas havia, em letras menores, menção a St. Moritz.

Pois bem, tendo em conta aquele velho e bom hábito brasileiro de perguntar tudo para alguém (até o que está escrito em uma placa na sua frente) bem como confirmar todas as informações umas quatro vezes (se possível com pessoas diferentes) fui até o funcionário da companhia. Segue o diálogo:

Eu: Boa tarde, este trem vai para St. Moritz?

Funcionário: Não, vai para Davos.

Eu: Ok, ok, então qual é o que vai para St. Moritz?

Funcionário: Nenhum.

Eu: Mas como, se eu perguntei agora no guichê e me disseram que esse trem iria…

Funcionário: Este trem vai para Davos e PASSA por St. Moritz.

Eu: E ele para lá?

Funcionário: Sim, com certeza.

E se despediu.

– Momento digressão nacional –

Ainda quero escrever uma tese sobre esse hábito de nós brasileiros sempre perguntarmos TUDO para uma pessoa. Não confiamos em placas, em anúncios, em escritos, nada! Apenas o que alguém nos diz é que vale (provavelmente para termos em quem colocar a culpa caso algo dê errado). Você aí meu caro brasileiro, minha cara brasileira, que está doido para ir até a Europa com esse seu hábito: esqueça! Lá existem máquinas para tudo e não tem para quem a gente perguntar. Se perguntarmos o que está numa placa (hábito comum aqui no Brasil) eles fazem cara feia ou tiram sarro (como fez o cara do trem). Nas estações alemãs e suíças não há catracas e nem bilheterias, apenas máquinas e muitas placas, com ótima sinalização. Vá na fé e acredite no que elas dizem. Funciona.

– Fim do momento de digressão nacional –

Entramos no dito cujo e na hora exata ele partiu…

Tchau Tirano!

Essa rota é um passeio. Partindo que na Suíça temos relógios, chocolates e trens pontuais, estamos apreciando aqui uma das coisas mais típicas do lugar. A ferrovia é muito bonita, em certos pontos bastante íngreme e com paisagens de tirar o fôlego. Aqui, mais do que escrever, vamos ver fotos:

A famosa ponte de pedras, patrimônio cultural da humanidade está logo no início do passeio

Aí o leitor vai reclamar (e com razão) da qualidade das fotos. O problema é que a maior parte delas está em movimento e todas foram tiradas pelo meu irmão (no post de Zurique eu explico porquê).

Mas a paisagem (como se nota) vai de picos nevados a vales com lagos. Campos e descampados. É uma paisagem muito bonita de se ver, relaxante e bucólica. A Suíça é bucólica por natureza. Calma, tranquila e serena. Mas sem se comprometer com ninguém, é claro.

Há algumas paradas no caminho para fotos e nosso foco foram os picos nevados (coisa de brazuca que não conhecia neve). Enfim, o passeio valeu a pena.

Quando chegamos em Pontresina (uma estação antes de St. Moritz) resolvemos saltar do trem. Nosso hotel, o Romantik Hotel Muottas Muragl não fica em St. Moritz, mas em Samedan, no alto do monte Engadin. Essa dica vai toda para o Ricardo Freire, que passou por lá e indicou o hotel, mesmo sem ter ficado. Ele é “pagável” em baixa temporada e valeu tudo o que passamos para chegar até ele.

Estação de Pontresina e a placa no busão: por favor, não serre o banco.

Depois de Pontresina existe uma estação chamada Punt Muragl, em que o maquinista pára se solicitado (gente, o acento diferencial é necessário aqui, eu mesmo me perco, então vou usá-lo, desautorizando o novo acordo ortográfico). Eu sabia disso, mas não sabia se o Bernina pararia na solicitação. Então optei por descer lá em Pontresina, me informar e pegar um ônibus de linha. Foi isso que fizemos. Deixamos mais um monte de francos suíços por lá (tudo é muito caro na Suíça) e descemos em frente ao hotel, onde pegamos o funicular. Aí sim, vamos às fotos (preste muita atenção a elas e compare porque na descida a paisagem mudou radicalmente:

Sobe!

Para quem conhece o Corcovado, esse trem é do mesmo estilo daquele. Há um cabo de aço, puxado por uma máquina lá em cima, que leva a cabine do trem.  O hotel fica a 2.456 metros e Pontresina a 1.777. Subimos aí uns 700 metros para chegar ao hotel.

E quando chegamos, aí vão outras fotos:


O hotel é muito interessante. Tiramos muitas fotos lá em cima, mas já estava anoitecendo. Aí fizemos o check-in e resolvemos descer para conhecer St. Moritz.

St. Moritz, a cidade fantasma.

Não é exagero o título acima. De maneira nenhuma. St. Moritz é uma vila típica Suíça, de população de 5.029 habitantes segundo a wikipedia. Descobriram o lugar na década de 80 e virou uma estação de esqui que recebe em torno de 200 mil visitantes anualmente.

Eu pensei (errado) que houvesse algo na cidade mesmo no verão. Que nada, não tem. Ainda mais se for no início da temporada (chegamos lá no dia da reabertura do hotel em que ficamos, por exemplo). Não tinha uma alma na rua! É desesperador. Ainda mais que era sábado e a Suíça respeita esse negócio de não funcionar nada de domingo. Chegamos lá eram umas 18 horas, portanto, as lojas já estavam fechadas e só reabririam na segunda-feira.

Foi uma mão de obra achar um lugar para comer. Havia UMA pizzaria aberta e mais nada. Depois de muito rodar, achamos e comemos lá mesmo. O garçom, português educadíssimo, nos disse que não tinha nada lá naquela época porque a cidade vive de inverno. Os hoteis estavam em reformas e as ruas da cidade, idem. Os cinco estrelas estavam todos fechados. Enfim, éramos nós quatro e um ou outro gato pingado…

No fim, tiramos poucas fotos no lugar (e em todas nós estamos) então não vai ter foto de St. Moritz deserta aqui. Acho que eu até tirei umas com a minha máquina, mas aconteceu um acontecido que nem gosto de lembrar…

Enfim, se você conhece Campos do Jordão ou Gramado, St. Moritz é o original disso. Uma cidade limpíssima, arrumada, organizada e cara de doer. Essas lojas que você encontra na Oscar Freire, em São Paulo, estão por todo lado ali. É um culto ao luxo, cercado de montanhas e com um visual fantástico.

O detalhe maior foi que comemos super rápido porque eu tinha visto que o último ônibus para Pontresina sairia às 19 horas. Pois bem, chegamos no ponto uns minutos antes, mas havia uma placa em alemão dizendo alguma coisa. Até perguntarmos ao simpático garçom o que aquilo queria dizer, e descobrirmos que significava que o ônibus não passaria naquele ponto por ele estar em reformas, já o tínhamos perdido.

Corremos até a estação de trem para tentarmos uma solução (o próximo ônibus só viria dali duas horas). Encontramos uma simpática russa que estava tão perdida quanto nós naquela cidade fantasma, descobrimos um trem que partiria em minutos e conseguimos pegá-lo. Chegamos ao ponto de trem do hotel e ficamos felizes pelo fato do maquinista ter aceito nosso pedido de parada.

Subimos de novo o funicular.

Tiramos umas fotos das montanhas, mas já estava anoitecendo (eram umas 21 horas). O hotel foi esvaziando e ainda nem tínhamos desfeito as malas. Demos umas voltas pelos mirantes, tivemos uma visão muito bonita e fomos dormir.

Aí tudo mudou…

Neve no verão

Quando acordamos, minha esposa disse que estava tudo branco lá fora. Ela tentou limpar os olhos (achando que estivessem embaçados, mas o branco seguia). Quando abrimos a janela, 7 horas da manhã…

Ah muleque!

Estava tudo branco. Tinha nevado a noite inteira e nós tivemos o privilégio de pegar neve em pleno verão. O pessoal da recepção estava confuso, os suíços, idem, e nós felicíssimos. Tudo o que queríamos era ver neve e ela estava ali, do nosso lado. Tiramos uma tonelada de fotos:

Aquelas montanhas das fotos ali de cima se tornaram essas montanhas aqui. Para nós foi muito interessante ver aquilo, mas ao mesmo tempo nos assustamos. Nós iríamos ao Jungfraujorch, que é o topo da Europa, em Interlaken, mas não levamos roupas de neve achando que em Berlim elas seriam mais baratas. Não achamos roupas de neve em Berlim (era verão, foi a frase que ouvimos) e os suíços não conhecem esse papo de alugar roupa (como ocorre em Bariloche). Roupas que aguentavam o frio nós levamos, mas não as para a neve, que é muito molhada e ensopa o pé.

Naquele mesmo dia iríamos pegar o trem que nos levaria a Zurique e ficamos preocupadíssimos em conseguir chegar na estação com aquilo tudo de neve. Havia bem uns 30 centímetros. Quando entrarmos no funicular, a vista foi essa:

Eu mesmo disse que para mim aquilo parecia decoração de natal de shopping. Pois bem, tivemos muito mais do que neve….

Chegando na estação, essa era a visão:

Antes de descer, perguntamos à funcionária da recepção se estava nevando lá embaixo. Ela me disse que sim, com a maior cara de tranquilidade. Perguntamos de novo se daria para andar de tênis e ela respondeu que não sabia. Fomos na fé e deu. A neve já havia derretido em grande parte e lá em cima estava muito mais frio do que embaixo, na estação de trem.

Deu tudo certo, mas acabamos correndo muito no hotel (por causa do horário do trem) tanto que mudamos o meio de transporte em Zurique. De todo modo, foi uma experiência incrível e inesquecível para nós. Apesar de ser tão trivial aos suíços…

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