Berlim – Temos uma cidade!

Berlim (Berlin em alemão – pronuncia-se Biélin) será, certamente, uma grande capital. Mas ainda tem ares mais provincianos do que Londres e Paris, só para ficar no exemplo europeu.

Fui para lá certo de que seria surpreendido pela cidade. Tinha um sexto sentido (que me fez reservar cinco dias para lá) de que ali seria o local mais interessante que eu conheceria. Não me decepcionei.

Berlim é um lugar que respira história. Poucos lugares do mundo já foram tão construídos e destruídos quanto ali. Menos lugares do mundo ainda foram divididos por dois modos de produção completamente diversos e viveram com um muro no meio. Poucos lugares explicam a marca de um povo que, pouco mais de 20 anos atrás, estava completamente dividido entre duas potências em guerra. Berlim foi o epicentro da Guerra Fria. Foi a capital do que seria o Terceiro Reich. E, por isso, tem muita história prá contar…

Não se pode esquecer que Berlim foi reunificada 22 anos atrás e, por isso, ainda está em construção. Mas eu esperava encontrar uma cidade mais dividida do que ela é. A parte oriental, sacrificada pelo socialismo, está muito bem amalgamada na cidade. Diria até que é muito mais interessante do que a Ocidental, que tem um ar mais comum de cidade grande…

Para situar o leitor. Berlim foi destruída na segunda guerra. Depois dela, com o tratado de Potsdam, foi dividida, na teoria, entre os quatro vencedores. Na prática, entre americanos e soviéticos. Após o término da guerra, havia muitos terrenos grandes disponíveis em pleno centro da cidade, em locais que as grandes capitais do mundo já têm sedimentados como históricos. Some-se a isso o fato de que, em 1961, foi erguido um muro que isolava a parte ocidental da cidade (americana), não apenas da oriental, mas também de todo o país oriental (Berlim fica na parte oriental da Alemanha, ou seja, era um estranho capitalista no meio do mundo socialista). Mais uma adição tem que ser feita: O muro tinha uma área de segurança, ou seja, alguns bons metros de distância entre o lugar onde as pessoas poderiam chegar e o muro propriamente dito. Em resumo, havia “n” terrenos à disposição de soviéticos e americanos. Ah, e dos alemães, também.

Aqui, a Potsdamer Platz. No meio dela passava o muro. Dá prá ver, no fundo, os “flats” típicos da arquitetura socialista. Há um vão enorme entre esses prédios e o atual Sony Center, um dos lugares mais modernos de Berlim. Aqui, praticamente na área central de Berlim, ainda tem muito espaço livre. Essa praça foi completamente destruída na segunda guerra.

O telhado do Sony Center, feito após a reunificação.

O nome da praça se deve à cidade de Potsdam, em um lugar onde passava a antiga estrada para lá.

Caminho do muro. Eles estão em toda parte (onde o muro passava, é claro)

Berlim combina muito bem o novo com o velho. A cidade me fez ter uma nova visão sobre como conservar o patrimônio histórico sem manter elefantes brancos abandonados e prédios sem nenhuma serventia, deixados ali sob a visão de “patrimônio histórico”. Todos os administradores de cidades brasileiras deveriam dar uma volta por lá para entender como aproveitar o espaço urbano sem derrubar os prédios antigos e simplesmente fazer outros novos no lugar.

O passeio vai começar pela Alexanderplatz, área viva de Mitte (fala-se Mittê ou Míttê, não adianta pronunciar Mítí como faríamos em português que eles não entendem). Aqui temos a Berliner Fernsehturm, que nada mais é do que a torre de TV que te dá uma visão de 360 graus da cidade. Vamos a algumas imagens tiradas de lá…

A própria Alexanderplatz vista da torre

Mapa atual da cidade de Berlim, com seus bairros

Notem que interessante é a parte oriental, com sua arquitetura típica socialista de flats

Os flats com alguma área verde no meio da “selva de pedra”

Vista geral da cidade

Aqui na Alexanderplatz, temos o mundialmente famoso relógio com as horas do mundo. Na minha opinião, um mico…

Mais de perto

Aqui mora o coração da, digamos, “nova Berlim”. Sempre se lembrem dos terrenos e do muro. A parte capitalista teve uns 50 anos para se fazer. A socialista deixava muitos “espaços de segurança”, característicos do regime.  Então, nesses espaços, a cidade se reconstrói.

Andando um pouco da Alexanderplatz ficam alguns dos “monumentos de Berlim”. Vamos conhecer o portão de Brandemburgo (Brandenburger Tor)? Dá prá ir à pé (é recomendável, inclusive).

Olha aí o menino

O portão de Brandemburgo ficou isolado durante toda a guerra fria. O muro passava na frente dele e ele ficou do lado oriental. Não servia para nada, já que estava na tal área de segurança que permeava o muro…

Foto comparativa entre o portão com e sem o muro

Existe uma data famosa, em que o presidente americano Ronald Reagan fez um discurso em frente ao portão, pedindo ao Gorbachev que “pusesse o muro abaixo”. Bem, quem fez isso não foram os soviéticos, mas os próprios alemães..

Andando um pouco para a frente, temos o Reichstag, prédio onde fica o parlamento alemão.

Para mim, essa é a única visita “obrigatória” em Berlim. É fantástico. Vou contar a história que o guia me contou lá dentro. O Reichstag é um prédio. O Bundestag é O parlamento alemão. O Bundestag hoje, está situado no Reichstag, ok? Ele foi reformado após a queda do muro (também ficou isolado durante a guerra fria) e se tornou a sede do parlamento em 19/4/1999, após a transferência de Bonn (capital da Alemanha Ocidental).

Uma foto da época para ilustrar…

Aqui, para mim, tirei as fotos da viagem. Ei-las:

O que são esses escritos, o leitor pode perguntar? Esses escritos são aqueles deixados pelos soviéticos que tomaram o Reichstag, no final da segunda guerra. Todo mundo que estudou história deve conhecer a famosa foto da capitulação de Berlim, quando os russos hastearam a bandeira com a foice e o martelo ali. Nesse dia, eles escreveram, com carvão ou giz de cera azul (que os comandantes tinham para marcar os mapas) recados ao Hitler. Existem lembranças como “Berlim Stalingrado”e “Viva Stalin”. Os russos tomaram Berlim sozinhos (e sempre fizeram questão de deixar isso claro) e estavam com muito ódio dos alemães (Stalingrado ficou sitiada por 2 anos na guerra e a população que não morreu de fome, teve que praticar até canibalismo!). Pois bem, dá prá entender por que cada um queria deixar sua marca na história…

Como isso ficou bem conservado até hoje, podem perguntar? Segundo o guia, as colunas foram cobertas com placas de gesso, já que o palácio foi completamente destruído na guerra. Só ficaram mesmo as paredes laterais. As próprias colunas ainda têm marcas de bala! Assim, esse gesso conservou os escritos, que foram descobertos na reforma que foi realizada a partir de 1990. Os próprios alemães resolveram manter aquilo ali, não como um símbolo de vergonha, mas para retratar um momento histórico…

Por dentro, o prédio é ultra moderno e tem a famosa cúpula que dá uma bela vista da cidade. Infelizmente no dia que fomos estava chovendo, mas mesmo assim deu para apreciar a arquitetura…

A cúpula

E o local de sessões do parlamento

Na parte debaixo, existe uma obra de arte com todos os nomes de deputados alemães. Eles levam isso muito a sério porque os nazistas mataram ou exilaram muitos dos que eram opositores… Um deles, é o próprio bigode, de infeliz memória para toda a civilização…

A sensação que tive é a de que os alemães são muito seguros em relação ao seu passado. Não sentem vergonha e nem se omitem. Eles próprios se sentem vítimas de um sujeito que, segundo um professor meu, de tão mau, torna o adjetivo demoníaco, uma ofensa ao senhor das trevas… Tomara que, baseado nas suas próprias memórias, eles jamais se deixem subjugar por outro desses…

Ao fundo do Reichstag, o Tiergarten, o parque dos berlinenses…

O Tiergarten é o parque dos berlinenses. É bonito, mas não se compara com os demais parques de capitais. Há histórias que, durante uma epidemia de frio, os próprios políticos alemães mandaram o povo cortar as árvores que lá existiam para aquecerem suas lareiras… Lá, tudo tem uma história…

Andando um pouco, passando novamente em frente ao portão e descendo a Ebertstrasse, chegamos ao monumento às vítimas do holocausto. Fizeram um monumento aos milhões de judeus assassinados na segunda guerra mundial, com diversos blocos de concreto, de diferentes alturas, lembrando um cemitério. Local para fotos…

Outro ponto interessante de Berlim é a coluna da vitória (Siegessäule). Mais uma coisa que tem muita história na cidade. Foi construído pelos prussianos em 1873 para celebrar vitórias militares sobre a Áustria, Dinamarca e França. E o detalhe, é que ele ficava na praça em frente ao Reichstag e foi retirado dali pelos nazistas para deixar a área livre, pois aquela região seria o centro administrativo da “nova capital do mundo”… Pois é, o projeto de nova capital do mundo não deu certo, mas a sorte de o monumento ter sido transferido foi enorme, já que se estivesse no local original certamente teria sido bombardeado pelos soviéticos…

Uma foto do belo monumento

Saindo da segunda guerra e voltando para a guerra fria, vamos dar um passeio pelo DDR Museum, que possui diversos objetos que lembravam a vida dos socialistas na Berlim Oriental.

Aqui eu tive uma grande surpresa. Sinceramente, esperava uma grande discrepância entre as casas capitalistas e socialistas. Não encontrei tanta diferença assim, na média. Tudo bem que a qualidade dos produtos era inferior, a das roupas, idem, e as pessoas passavam por racionamentos de comidas. Mas essa casa montada se pareceria muito bem com uma casa capitalista da década de 60 e 70, com televisão, água encanada, fogões, banheiros, etc. A vida era bem diferente, com muitas privações, mas as casas, em geral, guardavam certa semelhança.

Tendo em vista que uma casa capitalista pobre deveria passar por privações ainda maiores do que as que passavam os socialistas, não sei bem como tirar alguma conclusão sobre o assunto. Se a casa comparada for uma casa de uma pessoa rica, obviamente que será muito inferior. Porém, se for comparada com alguma casa de periferia, provavelmente apresentará melhores condições de vida. É um exercício de comparação complexo e, pelas fotos, cada leitor pode tentar concluir alguma coisa…

Esse museu tem uma série de coisas interessantes e dá prá perder uma tarde tranquilamente por lá. Mas vai exigir imaginação do visitante, que precisará abrir a cabeça para tentar entender o mundo dos socialistas.

O Muro

Já falei, por cima, de diversas coisas relacionadas ao muro. Só que, em Berlim, acredito que seja interessante tirar um tempo para tentar entender sua história e a por trás dele. Para isso, vamos começar nosso passeio por um dos lugares mais emblemáticos de Berlim: O checkpoint Charlie.

Esse lugar era um dos raros pontos de comunicação entre as “Berlins”. Era uma fronteira de países, dentro da mesma cidade. Havia controle de passaporte, verificação de documentos e etc. Nem precisa dizer que a passagem da parte oriental para a ocidental era muito mais complexa do que o contrário. Em tese, os ocidentais podiam fazer o que quisessem. Os orientais, na prática, não.

Vista estando no setor americano

E aqui, do setor soviético…

Eu sempre me pego pensando na maluquice que devia ser aquilo. Imagine você, um berlinense típico. Aplique isso para qualquer cidade do país. Pense que você tinha amigos/parentes vivendo num bairro e você no outro. Aí vocês entram numa guerra, perdem essa guerra e os que te venceram entram na sua cidade e a dividem entre si. Numa bela noite levantam um muro e impedem que você tenha contato com essas pessoas, talvez pelo resto da vida. Como será que você se sentiria?

Uma maquete, do museu DDR, de como era o muro

Existiam torres de vigilância por toda a extensão do muro. E com ordem de atirar para matar em quem quisesse se meter no meio da área de segurança… O muro, inclusive, cortava o próprio rio Spree em determinados lugares. No Checkpoint Charlie existe um museu muito interessante que conta diversas histórias de pessoas que tentaram (e conseguiram ou não) atravessar o muro. Teve gente que usou balão, porta malas de carros, antenas de televisão, submarinos, passaportes falsos e etc. Muitos dos casos eram até de noivos e noivas que foram separados, no calar da noite, pelo erguimento do muro…

Hoje, pessoas se vestem com os uniformes da época e cobram por fotos no lugar. Além disso, é possível obter um carimbo da Alemanha Oriental no seu passaporte, caso tenha interesse.

Seguindo pela Zimmerstrasse, do próprio Checkpoint Charlie, chegaremos à exposição topografia do terror. Ali existe um grande pedaço do muro ainda de pé e bastante danificado. Essa exposição fala dos terrores do nazismo e fica na região da Gestapo e das SS. Essa rua, no delírio nazista, era o centro de controle de Hitler, onde havia diversos prédios de sua administração. Boas fotos…

Terminando o passeio sobre o muro, visitamos a East Side Gallery, maior extensão preservada dele. Fica à beira do rio Spree e possui diversas obras de arte pintadas. É bonita e serve muito bem para fechar o tour sobre o muro…

Aqui termina esse passeio por Berlim. No menu ao lado existem outros links para a continuação dessa viagem. Espero que gostem!

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